“As pessoas me procuram em casa para cortar o cabelo. Já estou mostrando o meu trabalho. Por enquanto não cobro nada, mas futuramente farei dessa a minha profissão”. Foi assim que Artur*, 30 anos, egresso do sistema prisional, resumiu seus planos para um futuro longe das grades. Há um mês participando do Programa de Inclusão Social de Egressos do Sistema Prisional (PrEsp), da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), Artur concluiu na última semana o curso de Cabeleireiro Básico, que vai lhe permitir exercer um novo ofício.

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Artur faz parte de uma turma de nove alunos, egressos do sistema prisional e cumpridores de alternativas penais, que, durante três semanas, sempre às segundas e terças-feiras, aprenderam técnicas de corte masculino, manuseio de máquina e tesoura, posição correta de segurar os objetos e os cortes que mais combinam com cada tipo de rosto. Com carga horária de 50 horas aula, o curso foi ofertado pelo Centro de Prevenção à Criminalidade (CPC) Centro, de Belo Horizonte, por meio dos programas PrEsp e Central de Alternativas Penais (Ceapa), em parceria com a Associação Mineira de Educação Continuada (Asmec).

O grupo se formou na última terça-feira (05.02) e, para treinar os conhecimentos adquiridos, três alunos participaram, nesta terça-feira (12.02), de uma intervenção prática no próprio CPC. Durante todo o dia, eles cortaram cabelos do público atendido pela unidade, que recebe uma média de 150 pessoas diariamente.

Após treinarem os cortes, os formandos receberam uma boa notícia: eles agora já têm uma data para iniciar a nova profissão. Os interessados foram convidados pela Asmec a montar um salão dentro da sede da instituição. No local será feito um núcleo de inclusão produtiva, onde a associação fornecerá o espaço e os insumos iniciais, e os alunos entrarão com seu trabalho. Toda a renda adquirida ficará com os profissionais.

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Vida nova

Depois de dez anos e meio cumprindo pena, esse foi o primeiro curso que Artur fez após deixar a penitenciária. Hoje em liberdade condicional, ele conta que começou a se interessar por corte de cabelo ainda no presídio. “Aprendi a cortar cabelo lá dentro, mas era com um aparelho de barbear. Quando fiquei sabendo do curso aqui logo me interessei. Agora estou profissionalizado”, diz.

Durante as aulas, os alunos receberam uma apostila com as principais dicas de cortes masculinos. Segundo o professor, Renato Pereira, que está há 18 anos na profissão, todos se interessaram muito pelo curso. “Agora eles sabem que têm uma profissão, que podem ser autônomos e podem viver disso”, explica. Renato conta que nas aulas procurou focar não apenas na teoria e prática de cabeleireiro, mas também tentou passar um pouco de sua própria vivência profissional. “Conversamos muito, dei muitas dicas, inclusive de como eles podem começar a montar um salão”.

Cumprindo prisão domiciliar, Pedro*, de 42 anos, há dois meses no PrEsp, planeja seguir as dicas que recebeu para garantir uma nova profissão. “Já estou com o dinheiro para investir no meu salão. Vou usar tudo que aprendi aqui”, conta o egresso, que também fez o curso de eletricista ofertado pelo PrEsp.

Segundo a gestora social do CPC, Mayesse Parizi, a demanda para o curso de cabeleireiro surgiu dos próprios atendidos na unidade. “Nós sempre buscamos ofertar os cursos de interesse deles, pois assim a chance de participarem é maior. Além disso, casar o interesse deles com a capacitação profissional contribui muito para que eles possam sair daqui com uma profissão”, detalha.

A gestora explica que por meio dos programas PrEsp e Ceapa a ideia é trabalhar com os egressos e cumpridores de alternativas penais diversas possibilidades profissionais, para que eles saibam que existem outros caminhos fora da criminalidade: “Nós procuramos aqui resgatar a pessoa como sujeito produtor de algo, e isso é muito importante para que eles se sintam importantes e voltem ao convívio em sociedade”.

* Nomes fictícios para preservar a identidade dos egressos

Texto: Lara Nassif

Fotos: Divulgação Sesp

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