Entre os diretores das unidades prisionais mineiras é unânime a afirmativa de que o modus operandi para tentar burlar o sistema de segurança está cada vez mais sofisticado e criativo. Entre os dias 17 e 24 de junho, foram 50 ocorrências de tráfico ilícito de drogas registradas em presídios e penitenciárias de Minas, conforme aponta o balanço realizado pela Diretoria de Segurança Interna, do Departamento Penitenciário de Minas Gerais (Depen MG). Em apenas oito dias, as cinco dezenas de ocorrências foram lavradas em 17 das 194 unidades prisionais do Estado.

O presídio de Itaúna é a unidade com uma das apreensões mais inusitadas deste período. No dia 18/6 policiais penais encontraram substâncias análogas à maconha dentro de goiabas. As frutas estavam no interior de uma caixa encaminhada via Sedex para um custodiado que cumpre pena na unidade prisional. Apesar de frutas não constarem no rol de itens permitidos para envio via postal, os policiais, mesmo sabendo que descartariam o alimento, realizaram a revista de todos os materiais conforme determinam os procedimentos de segurança. Aproximadamente 200 gramas do ilícito estavam escondidos dentro das frutas, que foram partidas ao meio.

Das 50 ocorrências registradas envolvendo drogas, 29 estão relacionadas às encomendas encaminhadas, supostamente, por familiares via Sedex. Os números apontam que, nestes últimos oito dias, 58% dos casos de tráfico de drogas se utilizaram dos itens encaminhados via postal para tentar burlar o serviço de inteligência e de segurança das unidades prisionais do Estado. Chinelos, biscoitos, pastas dentais, rolos de barbante para artesanato, barras de doce de leite, barras de sabão e sabonetes são apenas alguns dos objetos utilizados para esconder os ilícitos.

No Complexo Penitenciário Nelson Hungria, em Contagem, substâncias semelhantes à maconha foram encontradas dentro de uma lâmpada LED enviada pelos Correios na última quarta-feira (24/6). A equipe estranhou o peso do material e abriu o item. Somente em junho, ainda sem fechamento do mês, foram registradas 468 apreensões de maconha nas unidades prisionais mineiras, resultado que traduz o esforço diário dos profissionais para impedir a permanência dos ilícitos nos estabelecimentos penais.

Prevenção e controle

A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), como medida de prevenção e controle da disseminação da covid-19 no ambiente prisional, suspendeu as visitas nas 194 unidades prisionais para diminuir a circulação de pessoas externas nos estabelecimentos penais. Os kits suplementares contendo alimentos, remédios entre outros itens, que antes da pandemia eram entregues pessoalmente, agora podem ser entregues apenas via postal para evitar a circulação de materiais contaminados. A medida beneficia centenas de familiares ao mesmo tempo em que exige dos policiais penais cada vez mais habilidade e destreza para realizar as revistas e não deixar que nenhum ilícito seja entregue ao custodiado destinatário da encomenda.

As rondas minuciosas também têm sido fundamentais para impedir que as drogas cheguem até o interior dos presídios. Cada detalhe pode ser suspeito. Foi o que aconteceu no último dia 19/6 no Presídio de Brumadinho, localizado na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Chumaços de cabelos chamaram a atenção do policial penal que fazia a ronda em um dos pavilhões. Ao tatear os fios, sete invólucros com drogas e um telefone estavam lá, escondidos entre as mechas.

Os arremessos de itens são cada vez mais frequentes na tentativa de fazer com que qualquer material ilegal ultrapasse as barreiras de concreto. Com isso, revista-se tudo: telhados, bordas de muralhas, proximidades de alambrados e todos os cantos dos pavilhões. Os cães farejadores são excelentes companheiros dos policiais penais durante as operações.

Em Uberaba, no Triângulo Mineiro, o pastor alemão Montanha, cão policial que participava de uma operação de revista da Penitenciária Aluízio Inácio de Oliveira, foi fundamental para encontrar maconha enterrada no perímetro de segurança da unidade. O invólucro escondia uma barra do ilícito e foi interceptado com o trabalho conjunto entre policiais penais e militares. Somente em Uberaba, neste período de uma semana, foram três ocorrências com apreensão de drogas: duas interceptações oriundas de rondas e uma tentativa de tráfico ilícito de entorpecentes por meio de encomenda via Sedex - nesta última estavam cigarros recheados de maconha escondidos dentro dos tubos de dois rolos de barbante.

Das 50 ocorrências do período analisado, 11 foram registradas no Presídio de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Em uma delas, 13 pedras análogas ao crack estavam escondidas dentro de um creme dental. Em outra, recebida no mesmo dia (20/6), seis pedras de substância semelhante ao crack e cinco buchas de substância análoga à maconha estavam dentro de barras de doce de leite. O trabalho de revista dos materiais exige muita expertise dos profissionais, é o que alerta o diretor-geral do Departamento Penitenciário de Minas Gerais, Rodrigo Machado.

"É preciso executar a todo momento a repressão ao crime, incluindo o tráfico ilícito de drogas. Os nossos policiais penais trabalham em sintonia com os setores de Inteligência para compreender a dinâmica criminal e efetuar o trabalho preventivo e repressivo com êxito. As operações de revistas são rotineiras nas nossas unidades prisionais. O objetivo é sempre coibir ao máximo a entrada e a permanência de materiais ilícitos no interior dos estabelecimentos penais. Acredito que estamos conseguindo realizar um excelente trabalho. O fruto dessas apreensões significa resultado positivo de um trabalho bem sucedido", avalia Machado.

Vale destacar que estas cinquenta apreensões somente estão relacionadas ao tráfico ilícito de drogas. Segundo a Diretoria de Segurança Interna, o número é muito maior quando envolve outros ilícitos como celulares, carregadores, chips, entre outros. Para se ter ideia do volume de trabalho em que estão imersos os servidores do sistema prisional, realça-se a média de 1.200 ocorrências por mês em todas as 194 unidades prisionais do Estado. As ocorrências podem ser registradas entre 19 naturezas criminais disponíveis no sistema e o tráfico de drogas representa entre 150 e 200 ocorrências mensais, ficando entre os principais registros.

Números

No período de janeiro a maio de 2020, foram registradas 747 ocorrências de tráfico ilícito de drogas no sistema prisional mineiro. No mesmo período do ano passado, os registros somam 963. A redução de 22% é atribuída, também, à redução da movimentação de pessoas nas unidades prisionais durante o período de pandemia, somada ao trabalho ostensivo que está sendo realizado em todas as unidades, aumentando o cerco contra aqueles que insistem em levar drogas para o interior dos estabelecimentos penais. Somente em junho deste ano, até o dia 24/6, foram registradas 468 apreensões de maconha, 221 de cocaína, 32 de crack e 15 de LSD nos presídios e penitenciárias de Minas.

A média mensal de apreensão de maconha, por exemplo, é de 15 kg da sustância em todo o sistema mineiro. Os dados são feitos com base na tabela de conversão de gramatura utilizada pelo Disque Denúncia Unificado (DDU), da Sejusp.

Algumas das artimanhas

Drogas dentro de pombo e em uma pipa. Peculiaridades que acendem o alerta sobre as diferentes modalidades utilizadas para burlar a segurança. Em maio deste ano, uma pipa que sobrevoava o Complexo Penitenciário Nelson Hungria foi interceptada pelos policiais penais de plantão. Atrelada ao papagaio colorido e aparentemente inocente, drogas.

Em junho, policiais do presídio de Ituiutaba, no Triângulo, realizaram a apreensão de drogas e equipamentos de celulares que estavam escondidos dentro de um pombo. O pássaro estava dentro da unidade prisional e foi encontrado durante uma varredura no local. Os policiais suspeitaram do animal e o levaram para a máquina de raio-x. Após examinar, foi constatado que havia 13 porções de maconha, uma pomada, além de um carregador de celular e um fone de ouvido dentro do animal.

Semana Nacional de Combate às Drogas

Até sexta-feira (26/6), Dia Internacional de Combate às Drogas, a Segurança Pública de Minas Gerais integra um movimento nacional com foco em ações operacionais voltadas para a prevenção e a repressão às drogas.

De forma integrada, a Sejusp, a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Corpo de Bombeiros Militar, a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal realizam ações ostensivas, repressivas e investigativas; como operações, barreiras policiais, cumprimentos de mandados de prisão, entre outras, durante atividades da Semana Nacional de Combate às Drogas. O objetivo é diminuir a oferta de drogas.

As ações acontecem ao longo da semana e serão capitaneadas pelo Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). O órgão é o responsável pelo contato com o Ministério da Justiça e Segurança Pública, que incentiva a realização das atividades da Semana Nacional em todo território brasileiro. Os trabalhos serão divulgados ao longo da sua execução, pelas forças integrantes deste combate focalizado às drogas.

Os órgãos de segurança também apoiam a campanha virtual de mobilização, inspiração e sensibilização contra as drogas da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais (Sedese), replicando seus conteúdos nas redes sociais. Com a temática “Eu acredito é na Rapaziada”, a ação desenvolvida por meio da Subsecretaria de Políticas sobre Drogas enfatiza a promoção de saúde e melhoria da qualidade de vida do público alvo, chamando a atenção para os fatores de proteção ao uso e abuso de álcool, tabaco e outras drogas.

*Fonte dos dados: Extração Reds/Diretoria de Segurança Interna/Sejusp/Depen

Texto: Flávia Santana

Fotos: Divulgação Ascom - Sejusp