Um grupo de nove detentas da ala LGBT da Penitenciária de São Joaquim de Bicas I (Professor Jason Soares Albergaria), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, concluiu no início deste mês um curso de produção e criação de peças em crochê. As aulas foram ministradas pela detenta transexual Maria Vitória, 27 anos, que aprendeu a arte de crochetar em uma oficina oferecida pelo Conselho da Comunidade da Comarca de Igarapé, no segundo semestre do ano passado. As aulas fazem parte do projeto "Maxi Crochê", cujo objetivo é formar multiplicadores na arte que requer concentração, paciência e criatividade.

As aulas foram realizadas durante uma espécie de intensivão, com duração de dois meses, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h. Portanto, houve tempo de aprender as mais diferentes técnicas e ainda produzir peças para presentear parentes e também para vender, o que trouxe uma ajuda para as famílias das detentas.

Para a diretora de Atendimento da penitenciária, Cristiane Leite Rodrigues, policial penal formada em Psicologia, o aprendizado do crochê possibilita uma sublimação pela arte. “Elas descobriram ter capacidade de construir algo belo, muito diferente do crime, da prostituição e das drogas. Trocaram a pulsão de morte pela pulsão de vida”, reflete a diretora.

Cristiane começou a trabalhar na unidade prisional no início do período de isolamento social e identificou, a partir de várias escutas de presas, a necessidade de ofertar a arte como um recurso terapêutico. “Sempre acreditei nas possibilidades das diferentes manifestações artísticas, e tínhamos uma pessoa preparada para ensinar”, explica.

Nas aulas, as presas LGBT fizeram tapetes, bolsas, toalhas e cachepôs — peça feita de diferentes materiais para colocar vasos de plantas. A qualidade do trabalho motivou uma encomenda de 1.200 destes cachepôs pela Comarca de Igarapé que, em parceria com o Conselho da Comunidade, forneceu as agulhas e linhas, tanto para as aulas quanto para esse pedido.

Renascer

Maria Vitória se destacou no curso dado por uma professora de crochê no ano passado, por isso se tornou uma multiplicadora. Ela diz nunca ter manuseado uma agulha antes das aulas, e jamais podia imaginar que iria ensinar. A presa tinha crises de depressão e ansiedade, e aprender a fazer crochê tem ajudado bastante a lidar com o sofrimento. “O crochê representa a possibilidade de ter uma renda, principalmente pelas dificuldades que vou ter ao sair daqui. Serei uma ex-detenta e transexual, com um corpo ainda marcado por características masculinas”, lamenta Maria Vitória.

Ao término do curso, foi realizada uma entrega de certificados, com a presença da juíza de Execução Penal da Comarca de Igarapé, Bárbara Isadora Santos Sebe Nardy; do presidente do Conselho da Comunidade de Igarapé, Mário Augusto Fernandes Filho; e de servidores da Penitenciária de São Joaquim de Bicas I.

Texto: Bernardo Carneiro

Fotos: Divulgação Sejusp