Iniciativa pioneira da Sejusp e Depen-MG está em pleno processo de expansão e pretende levar suas oficinas para todas as regiões de Minas Gerais
Em agosto de 2025, o programa ‘Liberdade em Ciclos' marcou a produção de 1 milhão de absorventes e fraldas em unidades prisionais de Minas Gerais, liderado pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) e pelo Departamento Penitenciário (Depen-MG). Este número prova uma justiça que exige reparação, capacita presos e restaura dignidade. “Eu duvidei que daria certo, era um desafio bruto. Mas cada absorvente, cada fralda, carrega o peso de mudar vidas”, afirma Bruno Amorim, da Superintendência de Humanização do Atendimento e força motriz do programa. Minas Gerais, o segundo estado que mais emprega presos no Brasil (depois de SP), com 18.839 detentos trabalhando, mostra que o trabalho prisional é um pilar de transformação.
Em 2021, o início
Em 2021, após produzirem milhões de máscaras na pandemia, a Sejusp MG e o Depen-MG decidiram, depois de tomar conhecimento de um problema grave e crônico no Brasil, a pobreza menstrual, que esse gravíssimo assunto demandava uma resposta prática e imediata do estado. Foi assim que o 'Liberdade em Ciclos' nasceu: para fabricar absorventes e fraldas nas prisões, com quatro objetivos: garantir higiene a mulheres, cadeirantes, idosos e crianças em vulnerabilidade, capacitar presos, cortar gastos públicos e doar produtos a comunidades carentes. “Era uma ideia que parecia impossível, mas decidimos tentar”, diz Bruno Amorim.
O projeto recebeu um aporte de R$ 2,6 milhões da Loteria Mineira, mas ainda não havia máquinas para absorventes no Brasil para produçao em pequena escala que pudessem ser usados nos presídios. Mas Amorim e sua equipe desafiaram as barreiras, correram atrás de fornecedores e ajustaram tudo o que foi preciso. Mas, hoje, ainda dependendo de modernização, Bruno celebra: “Essa máquina de hoje é nossa resposta a quem duvidava”, celebra Bruno. "E melhor: o absorvente e as fraldas são validados por todos que os utilizam!"
Um milhão de unidades
O ‘Liberdade em Ciclos’ atingiu a incrível marca de 1 milhão de absorventes e fraldas produzidos em oito unidades de Minas Gerais: Complexo Feminino Estevão Pinto, Complexo Penitenciário Nelson Hungria, presídios de Tupaciguara, Ituiutaba, Penitenciária de Teófilo Otoni, presídio de Alfenas, de Malacacheta, de Floramar, no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto (BH), no Complexo Penitenciário Nelson Hungria (RM de BH); presídios de Tupaciguara e Ituiutaba (Triângulo Mineiro), Penitenciária de Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), Penitenciária Deputado Expedito Faria de Tavares e Presídio (Patrocínio) e Presídio de Alfenas (Sul de Minas).
O Presídio Floramar, em Divinópolis, é a unidade mais recente a implantar a fábrica e usou verbas judiciais para adaptar seu galpão. “A fábrica uniu o presídio, da segurança à direção, em torno de um propósito maior”, afirma Gilberto Veloso, diretor-geral do Floramar. “Um milhão de unidades é justiça materializada, é dignidade em cada pacote”, diz Bruno Amorim.
Para Rogério Greco, secretário de Estado de Justiça e Segurança Pública, cada fralda e cada absorvente produzidos pelo programa 'Liberdade em Ciclos' representa economia para o Estado, dignidade para quem recebe e transformação para quem produz. “Acreditamos em resultados: um milhão de unidades fabricadas provam que o trabalho é o único caminho real para reparar o mal causado e construir uma nova história. Quando o preso trabalha, todos ganham: ele resgata sua dignidade, a sociedade é reparada, o estado economiza e as populações mais vulneráveis recebem aquilo de que mais precisam.”
Trabalho que liberta
Para que os presos possam trabalhar no programa 'Liberdade em ciclos', eles passam por um curso de Boas Práticas de Fabricação, recebem certificado emitido por uma instituição de ensino que ensina produção, higiene, segurança e empreendedorismo. Em Divinópolis, mais de 58 custodiados, preparados para o mercado, mostram o impacto. “Não é só remição de pena; é a chance de abandonar o crime e abrir um negócio próprio”, destaca Gilberto Veloso. A rotatividade exige turmas de 15 alunos, com seleção rigorosa e segurança garantida.
A produção abastece 100% da necessidade do sistema prisional e todo o excedente vai além: é doado a quem precisa. Em 2024, por exemplo, milhares de absorventes e fraldas chegaram às vítimas das enchentes no Rio Grande do Sul. Em 22/08/2025, o Presídio de Ituiutaba doou 3.600 fraldas ao lar “Obras Sociais Adolfo Bezerra de Menezes”, assegurando higiene e saúde aos idosos. Outras doações incluem centenas de pacotes de fraldas para ONGs, associações, asilos e centenas de milhares de absorventes para escolas, via Cedes.
Amorim garante que a qualidade dos produtos é inegociável. Cada manta de 25 kg rende 600 a 700 unidades, embaladas em pacotes de 16 absorventes ou 12 fraldas. Testes microbiológicos garantem segurança, uma manta virgem, mais macia, foi exigida, assim como absorventes noturnos, com maior capacidade de absorção.
Reconhecimento - O sucesso do programa é tanto que, em 2022, o programa Liberdade em Ciclos venceu o 2º lugar no 7º Prêmio Inova Minas Gerais (2022) e inspirou iniciativas nacionais. “Compartilhamos o nosso trabalho”, admite Bruno, mas a patente da matriz de corte e do nome está em andamento, com um memorial descritivo em preparação.
Um modelo para Minas Gerais
Minas Gerais, o segundo estado que mais emprega presos no Brasil, com 57% das empresas certificadas pelo Selo Resgata, prova que o trabalho prisional é justiça viva. Histórias ao longo de estado, em que mulheres usavam miolo de pão como absorvente e famílias carentes chegavam a procurar fraldas em sacos de lixos para então lavá-las, secá-las e então reutilizá-las são a força da luta que movem todos os que estão por trás deste programa vencedor. “O Liberdade em Ciclos não é só sobre números; é sobre devolver a quem está preso a chance de se erguer e à sociedade o direito à dignidade. Esse é o ciclo que queremos levar a cada canto de Minas”, conclui Bruno Amorim.
Leonardo Badaró, diretor-geral do Depen-MG, é certeiro ao dizer: “O Depen deve disponibilizar o trabalho a cada vez mais presos em Minas: ativos, aprendendo ofícios para se reintegrar à liberdade, contribuindo para o sistema, cortando custos para o estado, para os presos e suas famílias, e ajudando os carentes. É um ciclo implacável onde todos vencem, tornando a ressocialização uma realidade absolutamente tangível.”
Depoimentos de quem faz
”Tem quatro meses que nós começamos com os projetos aqui na unidade de programa. Primeiramente, agradeço a Deus por estar abrindo as oportunidades para nós, ao diretor da unidade e ao grupo que nos uniu aqui. Estamos realizando essa ação trazendo oportunidade de abrir uma porta para todos. E um curso profissionalizante que nós fizemos para estar repassando para outras pessoas e até nós ganhar nosso caminho de liberdade e trazer nossa trajetória de trabalho para a vida lá fora. É uma mudança de vida, uma expectativa. No tempo que a gente tá aqui, que poderia ser um tempo perdido, né, tamos ajudando as pessoas carente lá fora lá. E assim, eu agradeço muito pela oportunidade de tá aqui e tá ajudando à sociedade.”
A., custodiado do Presídio FLoramar e trabalhador do ‘Liberdade em Ciclos’
"Para nós é muito gratificante estar aqui aprendemos a desempenhar uma profissão e entender que possamos ajudar as pessoas que estão lá fora. Estamos reeducando, estamos presos, mas estamos aqui cumprindo nossa pena e fazendo o que há de bom para a sociedade. E automaticamente que nós aprendemos também muita coisa através de higiene, como se comportar. O curso que foi passado para nós ensina sobre como higienizar, como não poder que o produto seja danificado e que possa automaticamente atender bem as pessoas lá fora. Tivemos a oportunidade gratificante de Deus que nos deu para estar aqui nesse projeto abençoado. E tem também o empreendedorismo que a gente aprendeu e quevamos poder sair daqui já pronto para para se entregar no mundo do trabalho lá fora, recomeçando as nossas vidas."
T., custodiado do Presídio Floramar e trabalhador do ‘Liberdade em Ciclos’
Projeto Compaixão leva esperança e recomeço a mulheres em situação de vulnerabilidade
Criado para atuar dentro das unidades prisionais e em comunidades carentes, o Projeto Compaixão tem sido uma ponte de recomeço para mulheres que desejam deixar para trás a criminalidade, a prostituição e a exclusão social.A iniciativa mantém uma casa de acolhimento no bairro Padre Eustáquio, atua no Centro de Belo Horizonte, atende homens e mulheres em situação de prostituição, e alcança sete comunidades da Capital. Nesse espaço, mulheres que saem do sistema prisional encontram apoio para reconstruir a vida, sozinhas ou acompanhadas dos filhos. “Nosso objetivo é sempre trabalhar com ressocialização e humanização. Muitas dessas mulheres chegam sem nenhuma perspectiva, mas aqui conseguem um recomeço digno”, afirma Delma Soares de Souza, diretora do projeto.“Eu acho muito interessante ver como a produção profissionaliza essas mulheres. Elas saem preparadas para abrir um pequeno negócio ou conseguir emprego em uma grande empresa. É um aprendizado que vai além da prisão”, destaca Delma. As doações recebidas, especialmente de fraldas e absorventes, têm sido fundamentais. “As fraldas são de altíssima qualidade e isso representa um alívio enorme, porque é um produto caro e nós recebemos gratuitamente. Já os absorventes, quando entregamos nas comunidades, geram uma reação linda. Muitas mulheres ficam surpresas: ‘Nossa, é de graça? Vai ajudar demais’. Isso mostra o quanto ainda temos famílias passando por pobreza menstrual”, relata Delma., ao final do encontro.
Texto: Ana Paula Drumond Guerra
Imagens: Tiago Ciccarini (Sejusp) e Arquivo pessoal do Projeto Compaixão